Ambíguo

Poço e não posso
fundo e no fun
sal e saliva
ego et no one

interior o medo
interna a pressão
inóspito ambiente
inexistente conexão

Água corrente
e o contorno do meu rosto
disforme, antes solene
mergulhado em desgosto

água corrente
salina e solidão
sentimento latente
corroído pela erosão

afunda o corpo
num insalubre desatino
jangada de madeira podre
ambíguo equívoco
e como destino dado foice
partiu-se:
está morto.

Carolina Lobo

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Amanhecer

Ser o que sei
enquanto limites escassos
ser o que sinto
ou sentido não acho

Infinita procura
infrutíferos resultados
ínfima abertura
interno o estrago

Silêncio corrompido
no escuro todos os passos
passam descomprometidos
num presente ainda opaco

Hesito.
Êxito
Hesito.
Êxito

Tudo muda num átimo

Carolina Lobo

(Re)encontro

No horizonte da vida

O susto

O sonho

Tremia – o corpo

Caia

No sono

Na hora do crepúsculo

O medo, os anjos

E as vozes que se ouviam

Lamúrias – pandemônio

Mas a cama

Vazia!

Onde jazem os monstros?

Nasce o sol

E o céu, laranja

Labaredas

Sente? – chamas

E eu, quem sou?

Me sobra flutuar

A mente – dispersa

E tudo o que é

E não era

Aquilo que eu quero não há

E porque sei que sou água

Frente ao meu reflexo

vejo-me obrigada

a reconhecer a minha essência

Maleável – inflexível

Domesticada – indomável

Paciente – intempestiva

Tudo depende

Da maré – do dia

Tudo depende

Das circunstâncias – da vida

Tudo depende

Do medo – do medo…

Eu que estou me afogando

Eu que flutuo – serena

Eu que insisto no nado

Eu que me encontro submersa

Corre a vida

Correm as águas

E se encontram

E são – o todo

O todo

E eu

E tudo

E nada

E todos

E tantos…

Que sou, que são, que somos.

Carolina Lobo

Imo

I

Num canto da minh’alma
Esquina tortuosa
Repousava fragilizado
Num receptáculo intacto
O íntimo do meu ser

Assim como o cantar dos pássaros
A noite o havia silenciado
Num lamento atormentado
Ecoando solidão
E talvez, não por acaso
Esperasse dos céus explicação

De joelhos, ave Maria
Sinal da cruz
Sermão

II

Os olhos doíam e, enfim,
Das turvas águas: absolvição
Secos, exauridos
Buscavam no horizonte
Sinais do nascimento do sol
Ergue-se do solo o tronco
Levanta do chão a mulher
Das cinzas estende a mão o anjo
Do pó transformava-se a fé

O universo cantava uníssono
A palavra faz surgir a matéria

III

Sopra o vento para longe
A areia que os olhos cegava
Canta o vento forte
O enigma da esfinge
Fora enfim desvendado

Corre, corre, menino
Gritos e vozes alterados
Novamente em meio a gente
Mas afinal, qual fora o pecado?

IV

A vida me consumia
Em chamas de puro sentir
Procurava o equilíbrio
E temia o seu não-existir

V

Tempo, tempo, tempo passa
Tempo esse em que te vi
Tempo que anseio nosso encontro
Tempo que te quero junto a mim

No âmago do meu ser
Nasce tua forma
Envolta em tantas incertezas
Seus olhos mistério sem fim
Guardam infinitas possibilidades
Se apenas dependesse de mim

ab imo corde
vem tudo o que me faz sentir

Carolina Lobo

Metamorfose de mim

Penso, independente do fim, que o importante sejam os meios. E se, ou se, talvez… todos cenários imagéticos cujos resultados jamais hão de ver a luz, porque, assim como as formas que aparecem no escuro, não passam de figuras nascidas do medo. Como se finalmente – após um longo período de introspecção – os olhos pudessem enxergar através da escuridão, fez-se claro aquilo que é de conhecimento popular e parece se esconder em momentos de pouca racionalidade: o que existia sob a luz, continuava intacto na falta dela. Ah, mas se não o grande silêncio, se não a falta de contornos nítidos, se não a possibilidade de pisar em falso, se não o medo dos riscos… eis que em meio ao breu re-surge a clareza do espírito. Penso, independente dos meios, que para tudo o que existe está reservado um fim. Assim, completos os ciclos eu me despeço, de corpo e alma, metamorfose de mim.

Carolina Lobo

Flores

Flores morrem

Não só de secura

Mas afogadas também

Flores morrem

Pétalas caem

As que sobram murcham

A cor desbota

Os espinhos, depois de mortos,

Ainda machucam

Flores morrem

Por falta d’água

Flores morrem

Ao contrário também

Flores morrem

Já a memória…

Quem dera morresse também

Flowers die

They drown

Or dry

It’s hard to get it right

Carolina Lobo

Eu e Eu

E

O vento 

Que sopra 

Pra lá e pra cá pra lá e pra cá 

O vento

E

Eu

E

As memórias 
Sentir é assunto delicado

Porque aquele que sente nem sempre

É sentido com cuidado

O vento que sopra

Impetuoso e veloz 

Tira ou bate 

Com força 

As memórias 
Estamos 

Eu

O vento 

Eu

E o frio

Indelicado e bruto
O frio 

E

Eu

E

As memórias 

E

O silêncio 
O frio machuca 

O silêncio também

Não se cura com agasalho 
A pele

O vento 

E o porém 
O tentar ser delicado 

Ao desferir o golpe no refém 
Então o vento e o silêncio passam

E só o que sobra sou

Eu

A pele

O porém
Carolina Lobo