Espelhos

Seus olhos são espelhosTurvos reflexos refletem

Estando tão distorcida a linha

Entre o que é mentira

E o que é dito porque envaidece 

E será essa então a sina?

Pagar pra ver o que acontece

Quando em mil estilhaços de vidro

Num eco infinito se repete

Não como agouro, mas como aviso

“Cuidado”

Mas a quem se refere?

Seus olhos são como espelhos

De uma imundice pretensa 

Como se estivesse alheio à poeira

Não realmente como ofensa

Existe mesmo uma linha

Que define o que é perdoável?

Da canalhice questionável?

Do que é bom, do que é mau?

E nunca tendo tido talento com linhas

Nem nada que exato fosse

Tendo em mente a abstração do relativo

E a boa fé dos amadores

Ai, que difícil cogitar 

E por fim, por que me importam os valores?

Seus olhos são como espelhos

Refletidos nos meus

E míope, não bastasse ingênua 

Eu não saberia dizer

Até que ponto acreditar em tudo 

Que não fez esforço em esconder

Ah, quisesse, pudesse, tivesse 

A bondade em me dar

Como dão os pais às crianças 

Coragem para pedalar 

Apesar de longe de fraterno poder classificar 

Mas disposta a andar por caminhos 

Disposta a aceitar

Estaria?

Seus olhos são um convite

Moldados bem-feitos ao meu gostar

Tentação eterna

Necessário recuar

É a provação divina

Como um inferno particular 

Atiça 

Mas pecado maior ainda parece ser

Não olhar

Seus olhos são como espelhos 

Da minha própria existência 

Agoniada e perturbada

Na intenção de ser serena

Conflito estúpido 

Entre o cérebro e a carne

Como se pudesse provar…

Mas que mal faria provar

Quando não importa o que se sabe?

Ora a ânsia, ora o desprezo

Ora a vontade, ora o bloqueio

Ora a recusa, ora o desejo 

Seus olhos são como espelhos

Frágeis e sensíveis como o vidro

Afiados e alheios aos seus efeitos

Seus olhos são como espelhos

Espelho, espelho meu 

Só que nunca fui eu 
Carolina Alves