Flores de cacto

Paciência é o que me guia
Através das noites com silêncios infindos
Que atravessados junto ao meu desalento
Me produzem ainda tanta insatisfação

Quando penso
Nas semanas que andei debruçada
Na janela, enamorada
De espinhos, que eventualmente
Funcionavam como farpas
Com a esperança de uma planta
Que mal precisava de água pudesse
Então florescer

Por raras que se façam tais ocasiões
Acontece, de quando em quando
Um botão discreto brotando
Esperança ainda germinando
E as flores recompensam a inquietação

Mas ainda não é questão resolvida
Pois assim como tudo na vida
Nada pode ser dado como certo, não

E, de tempo em tempo, o tempo passa
Atrasando cada vez mais a chegada
Dos tais botões que reacenderiam dos meus olhos
O brilho
Que por vezes acaba enfraquecido
Por trás de tanta expectação

Eu espero, confiando que tal metamorfose
Bem como trevos de sorte
Trará alguma bendição

E, por fim, não mais silêncio
E sim uma espécie de atento lembrete
De que o tempo ao tempo pertence
Alheio às humanas questões

E, talvez, num dia que nada se espere
Duas retas façam curva
Num encontro sem premeditação
E com o sangue enfim pulsando
Flores de cacto surgirão

Carolina Lobo

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