Pôr-do-sol

Sol-se-pôr
Se por você assim for dito
Se por só
Daquilo que sente um pedaço finito
Por si só difícil conter pois tal como
Água quente queimando na pele
Dá vontade é do grito
De repente desejo latente que esmaga
O peito e não sei se respiro
E contenho essa pressão nos ossos
Que insistem em querer levar meus pés
Ao Destino
Deste nó que me embola a garganta
E nem mesmo um mantra sufoca
Aquilo que sinto
E calada pouco a pouco esvai a vida
Da vontade mal nutrida
Que não sabe se grita já que o medo
Parece crescente
Só se por
Inesperado milagre
Em hora conveniente calhe
Sobrepondo-se as lacunas dos silêncios
Intocáveis
(Pois sensível é a pele recém-queimada
E tamanha destreza é necessária ao ser
Cuidada)
Ai, na ânsia de se mostrar benquerença
Ai, dolorosa essa tal intensa
Intenção desse querer
Pôr-do-sol
Pôr-do-Ser
Que permanece assim parado
Esperando atravessado
O caminho
Só se por você

Carolina Lobo

Luz

Antes do amanhecer, a escuridão profunda
impedia a clareza das Ideias
Que, carregadas de uma solidão única,
recusavam-se a acreditar nas frestas
E assim, tão íntima do escuro,
sentiu arderem os olhos ao raiar do dia
E, num impulso louco,
temeu a Luz, que sombra também produzia
Passo-a-passo, pouco-a-pouco
desabrochava feito flor
Passarinho voando do ninho
criança que não conhece a Dor
Vez ou outra se arriscava
à luz do sol se expor
Mal se via, já dançava
e nem sempre levava protetor
Mas quando a noite enfim chegava
certificava-se de reclamar, ciumenta
Seu lugar entre as Ideias
ora claras, ora turbulentas
Bastava Luz ter a pele tocado
para espantar o torpor
Consequência do tempo no escuro
onde era incapaz de distinguir cor
Ainda que comedida, confiava
E por querer em demasia, acreditava
Ao fim do dia, já não recuava
Aurora em seu esplendor 
Carolina Lobo

Mar

Na beira da areia,
com medo de entrar
Os pés, de sereia,
não sabem nadar
Portanto, observam, cautelosamente,
a gentileza da água, que um convite pretende
E, encantada com a possibilidade
de conhecer o mundo,
Se entrega a sereia, tomada de orgulho

Com a inocência inerente às infantis descobertas
mergulhava a sereia, que não era mais dela
Se doou para o mar, como todos faziam
confiando plenamente, como poucos sabiam

E ao menor sinal de tempestade, permanecia imóvel
acreditando na correnteza, mesmo em tempos duvidosos
Mas se de certo sabia que não só de calmaria
se fazia o mar
Encontrou-se desprevenida ao perceber que
caixote atrás de caixote era capaz de afogar

No entanto, dia após dia, insistia em ali ficar
seu coração navegante temia
Que as pernas por conta própria não soubessem mais andar
E assim os dias seguiam
até que para quebrar a rotina, o mar se pôs a brincar

Por vezes ele acalmava, levando por entre as ondas a sereia
que se regozijava com aqueles momentos
Acalentada por ainda pertencer

Se ao menos não tivesse aprendido
ao mar deixar de temer
Talvez não tivesse então cedido aos seus caprichos,
impossíveis de prever

E quem sabe sorte melhor teria tido
se houvesse um salva-vidas a seu dispor
Quando avistou um lobo mal-cuidado,
esquelético, e já tão fraco
Apresentando-se como seu salvador

Todavia, de uma fome incontrolável,
há meses angustiado, vinha a sofrer
E a sereia, já aos pedaços,
descolou do osso a carne
Sem muito esforço fazer

À aquela altura, já muito abalada,
mergulhada no Rio dos mortos
Renovou, alheia à dor, com o mar
perpétuos os seus votos

E ao fim misturados,
a sereia, o lobo e o mar
Se fundiram naufragamente
E, dos três, a eternidade
apenas a um pertencente
Soberanas a qualquer vontade,
por bem, ou por maldade,
Prevalecem as águas do mar.

Carolina Lobo