Mar

Na beira da areia,
com medo de entrar
Os pés, de sereia,
não sabem nadar
Portanto, observam, cautelosamente,
a gentileza da água, que um convite pretende
E, encantada com a possibilidade
de conhecer o mundo,
Se entrega a sereia, tomada de orgulho

Com a inocência inerente às infantis descobertas
mergulhava a sereia, que não era mais dela
Se doou para o mar, como todos faziam
confiando plenamente, como poucos sabiam

E ao menor sinal de tempestade, permanecia imóvel
acreditando na correnteza, mesmo em tempos duvidosos
Mas se de certo sabia que não só de calmaria
se fazia o mar
Encontrou-se desprevenida ao perceber que
caixote atrás de caixote era capaz de afogar

No entanto, dia após dia, insistia em ali ficar
seu coração navegante temia
Que as pernas por conta própria não soubessem mais andar
E assim os dias seguiam
até que para quebrar a rotina, o mar se pôs a brincar

Por vezes ele acalmava, levando por entre as ondas a sereia
que se regozijava com aqueles momentos
Acalentada por ainda pertencer

Se ao menos não tivesse aprendido
ao mar deixar de temer
Talvez não tivesse então cedido aos seus caprichos,
impossíveis de prever

E quem sabe sorte melhor teria tido
se houvesse um salva-vidas a seu dispor
Quando avistou um lobo mal-cuidado,
esquelético, e já tão fraco
Apresentando-se como seu salvador

Todavia, de uma fome incontrolável,
há meses angustiado, vinha a sofrer
E a sereia, já aos pedaços,
descolou do osso a carne
Sem muito esforço fazer

À aquela altura, já muito abalada,
mergulhada no Rio dos mortos
Renovou, alheia à dor, com o mar
perpétuos os seus votos

E ao fim misturados,
a sereia, o lobo e o mar
Se fundiram naufragamente
E, dos três, a eternidade
apenas a um pertencente
Soberanas a qualquer vontade,
por bem, ou por maldade,
Prevalecem as águas do mar.

Carolina Lobo

 

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Flores de cacto

Paciência é o que me guia
Através das noites com silêncios infindos
Que atravessados junto ao meu desalento
Me produzem ainda tanta insatisfação

Quando penso
Nas semanas que andei debruçada
Na janela, enamorada
De espinhos, que eventualmente
Funcionavam como farpas
Com a esperança de uma planta
Que mal precisava de água pudesse
Então florescer

Por raras que se façam tais ocasiões
Acontece, de quando em quando
Um botão discreto brotando
Esperança ainda germinando
E as flores recompensam a inquietação

Mas ainda não é questão resolvida
Pois assim como tudo na vida
Nada pode ser dado como certo, não

E, de tempo em tempo, o tempo passa
Atrasando cada vez mais a chegada
Dos tais botões que reacenderiam dos meus olhos
O brilho
Que por vezes acaba enfraquecido
Por trás de tanta expectação

Eu espero, confiando que tal metamorfose
Bem como trevos de sorte
Trará alguma bendição

E, por fim, não mais silêncio
E sim uma espécie de atento lembrete
De que o tempo ao tempo pertence
Alheio às humanas questões

E, talvez, num dia que nada se espere
Duas retas façam curva
Num encontro sem premeditação
E com o sangue enfim pulsando
Flores de cacto surgirão

Carolina Lobo

Cérbero

Aurora celestina
Destino bestial
No meio do caminho
Decisão bilateral

E no meio dos moinhos
Os grãos já não entendem
Por qual motivo fariam
O movimento de sempre

Entre o silêncio e os latidos
Há breves instantes onde o contente
Significa mais do que resignado
E simboliza uma emoção latente

Ainda que o relógio se inspire
Seu trabalho não parece suficiente
Quando os minutos se arrastam
Prolongando em demasia
Um desastre iminente

Caia sobre ti a água fria
Ou o fogo ardente
De que importa o motivo
Se as entranhas continuariam dormentes

Entre um rosnar e outro
Talvez mordaças fossem convenientes
Mas que bem fariam
Ao inquietar ainda mais a mente

Pois um cão enraivecido
Contido de forma eficiente
Só adia o problema
Visto que as mordaças necessitam
Sair eventualmente

E no meio da briga
A tua cabeça pende
Solenemente entristecida
Malfadada e dormente
Já que a grande ironia
Reside no teu presente
Incômodo sugestivo
Geograficamente inconveniente

Pois sendo a cabeça do meio
Suscetível ao impasse das demais
Se não acabar devorada
Dificilmente encontrará paz

E assim segue a desgraçada
Sucumbindo lentamente
Por vezes na euforia
Resultante de um dos lados dormentes

Mas bem como tudo na vida,
Há de permanecer oculto
Até que seja revelada
Por qual arcada perecerá o mudo

Carolina Alves

Geodésica

Pontes apontam pontos
Opostos, reversos, porém iguais
Dependendo do sentido desejado
De partida, despedida
De chegadas, pontuais

Pontos são como os portos
Que guardam solenes os cais
Estruturas fixas
Águas móveis
Retornos ocasionais

Pontes são como pontos
Para os quais apontam os ponteiros
Indicando o tempo no espaço
E a possibilidade de atrasos costumeiros

Pontes e ponteiros são como pontos
Indicando a menor distância, uma reta
Mas nem sempre a distância é um plano
Necessário para que seja reta
Não raro quando fora de sala de aula
Se apela para a Geodésica

Pois existe o tridimensional
E nessas horas se apela para as curvas
Num mundo repleto de desencontros
O formato da Terra não muda

Às vezes, em linha reta
Maior a distância
Do que a percorrida nas curvas
E apesar de pontes serem pontos de encontro
Não é possível descartar as curvas

Por: Carolina Lobo

Re(ação)

Todas as estrelas se alinhamDispostas, como nós estamos,

A serem serenas vigias

Que coroam em bênçãos 

Repletas de brilho

O momento pelo qual esperamos
E os pés, disponíveis ainda 

A infinitas milhas seguir caminhando 

Percorrem o caminho de terra, asfalto e pedra

Tendo cada passo o coração guiando 
E à noite, numa cama fria

Dois corpos repousam, por fim se tocando

E, que outra consequência traria 

Se não aquecer aquelas almas

Com o calor das peles emanando
Ao fundo, sempre havia a melodia

E a poesia existia

Ao admirar cada nota tocando 

Aos poucos, todas elas preenchiam

As partes que à elas cabiam 

Como se fossem combustível para o amor

Cada vez maior despertando
Assim, como se o coração fosse depósito precioso 

Memórias foram guardando

Entre as quais não havia briga

Pois entre todas vividas 

Havia apenas o melhor de ambos 

Espaço disputando
Longe da vida ser perfeita

Há dias de sombra e seca

Apesar destes não passarem de distantes memorandos

De que nem tudo que reluz é ouro

Mas tudo que é ouro reluz

E em dias de sombra, a menor luz 

É motivo de certeza, e não espanto 

De que vale sempre a pena seguir

Tentando 
Dois corpos na beira da lagoa jaziam

E o sol seus corpos abraçando 

De mãos dadas o vento sentiam

E dele recebiam a mensagem 

De que o caminho estava apenas começando 

E naquelas águas um dia entrariam

Com a plena certeza de que ao sair não seriam

As mesmas pessoas que eram entrando 

Ainda assim, uma coisa não mudaria

E permaneceria intacta

Tal como o segredo da Terra

E o dos anjos
Por ora, bastava fazer espalhar a notícia 

De que nesse mundo havia 

Dois indivíduos se conectando 

Por amor, sorte ou destino 

Havia a certeza

E era o que mantinha o mundo girando

Carolina Lobo

Instante

OlhosOlhares

Olhando 

Troca silenciosa

Infinita compreensão 

Brilho do céu estrelado

Me pega num giro

Orbitando

Entre suspiros de excitação

Pele

Pelando

Pelada

De qualquer receio

Ou repreensão

Velando com todo cuidado

O que ainda é frágil

Mas tem proteção 

Raízes emergem de todos os lados

Fincando com força 

Independente de permissão 

E, sem ouvido dar aos cuidados

Com os dois pés mergulho

De cabeça na escuridão 

De um par de olhos castanhos 

Adoçados 

Em um convite impassível de

Negação 
Carolina Alves

Pedra

Definhando aos poucos Quem diria que não? 

Como flor sem vida

Pétalas secas ao chão 

De pensar, mais que um pouco 

Ficou certo então 

Que assim como um louco 

Padecia e não

Outra coisa fazia 

Que não fosse lamentação 

Como o canto solitário 

Feito eco 

Solidão 

De dar ao pranto mais água 

Se ao menos o que transbordasse 

Fosse satisfação  

Sal na boca

Ar na cabeça

Pedra no coração

Ah, de mãos dadas o medo

E todos os desejos

Receita de extinção. 
Carolina Alves