Geodésica

Pontes apontam pontos
Opostos, reversos, porém iguais
Dependendo do sentido desejado
De partida, despedida
De chegadas, pontuais

Pontos são como os portos
Que guardam solenes os cais
Estruturas fixas
Águas móveis
Retornos ocasionais

Pontes são como pontos
Para os quais apontam os ponteiros
Indicando o tempo no espaço
E a possibilidade de atrasos costumeiros

Pontes e ponteiros são como pontos
Indicando a menor distância, uma reta
Mas nem sempre a distância é um plano
Necessário para que seja reta
Não raro quando fora de sala de aula
Se apela para a Geodésica

Pois existe o tridimensional
E nessas horas se apela para as curvas
Num mundo repleto de desencontros
O formato da Terra não muda

Às vezes, em linha reta
Maior a distância
Do que a percorrida nas curvas
E apesar de pontes serem pontos de encontro
Não é possível descartar as curvas

Por: Carolina Lobo

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Re(ação)

Todas as estrelas se alinhamDispostas, como nós estamos,

A serem serenas vigias

Que coroam em bênçãos 

Repletas de brilho

O momento pelo qual esperamos
E os pés, disponíveis ainda 

A infinitas milhas seguir caminhando 

Percorrem o caminho de terra, asfalto e pedra

Tendo cada passo o coração guiando 
E à noite, numa cama fria

Dois corpos repousam, por fim se tocando

E, que outra consequência traria 

Se não aquecer aquelas almas

Com o calor das peles emanando
Ao fundo, sempre havia a melodia

E a poesia existia

Ao admirar cada nota tocando 

Aos poucos, todas elas preenchiam

As partes que à elas cabiam 

Como se fossem combustível para o amor

Cada vez maior despertando
Assim, como se o coração fosse depósito precioso 

Memórias foram guardando

Entre as quais não havia briga

Pois entre todas vividas 

Havia apenas o melhor de ambos 

Espaço disputando
Longe da vida ser perfeita

Há dias de sombra e seca

Apesar destes não passarem de distantes memorandos

De que nem tudo que reluz é ouro

Mas tudo que é ouro reluz

E em dias de sombra, a menor luz 

É motivo de certeza, e não espanto 

De que vale sempre a pena seguir

Tentando 
Dois corpos na beira da lagoa jaziam

E o sol seus corpos abraçando 

De mãos dadas o vento sentiam

E dele recebiam a mensagem 

De que o caminho estava apenas começando 

E naquelas águas um dia entrariam

Com a plena certeza de que ao sair não seriam

As mesmas pessoas que eram entrando 

Ainda assim, uma coisa não mudaria

E permaneceria intacta

Tal como o segredo da Terra

E o dos anjos
Por ora, bastava fazer espalhar a notícia 

De que nesse mundo havia 

Dois indivíduos se conectando 

Por amor, sorte ou destino 

Havia a certeza

E era o que mantinha o mundo girando

Carolina Lobo

Instante

OlhosOlhares

Olhando 

Troca silenciosa

Infinita compreensão 

Brilho do céu estrelado

Me pega num giro

Orbitando

Entre suspiros de excitação

Pele

Pelando

Pelada

De qualquer receio

Ou repreensão

Velando com todo cuidado

O que ainda é frágil

Mas tem proteção 

Raízes emergem de todos os lados

Fincando com força 

Independente de permissão 

E, sem ouvido dar aos cuidados

Com os dois pés mergulho

De cabeça na escuridão 

De um par de olhos castanhos 

Adoçados 

Em um convite impassível de

Negação 
Carolina Alves

Pedra

Definhando aos poucos Quem diria que não? 

Como flor sem vida

Pétalas secas ao chão 

De pensar, mais que um pouco 

Ficou certo então 

Que assim como um louco 

Padecia e não

Outra coisa fazia 

Que não fosse lamentação 

Como o canto solitário 

Feito eco 

Solidão 

De dar ao pranto mais água 

Se ao menos o que transbordasse 

Fosse satisfação  

Sal na boca

Ar na cabeça

Pedra no coração

Ah, de mãos dadas o medo

E todos os desejos

Receita de extinção. 
Carolina Alves

Espelhos

Seus olhos são espelhosTurvos reflexos refletem

Estando tão distorcida a linha

Entre o que é mentira

E o que é dito porque envaidece 

E será essa então a sina?

Pagar pra ver o que acontece

Quando em mil estilhaços de vidro

Num eco infinito se repete

Não como agouro, mas como aviso

“Cuidado”

Mas a quem se refere?

Seus olhos são como espelhos

De uma imundice pretensa 

Como se estivesse alheio à poeira

Não realmente como ofensa

Existe mesmo uma linha

Que define o que é perdoável?

Da canalhice questionável?

Do que é bom, do que é mau?

E nunca tendo tido talento com linhas

Nem nada que exato fosse

Tendo em mente a abstração do relativo

E a boa fé dos amadores

Ai, que difícil cogitar 

E por fim, por que me importam os valores?

Seus olhos são como espelhos

Refletidos nos meus

E míope, não bastasse ingênua 

Eu não saberia dizer

Até que ponto acreditar em tudo 

Que não fez esforço em esconder

Ah, quisesse, pudesse, tivesse 

A bondade em me dar

Como dão os pais às crianças 

Coragem para pedalar 

Apesar de longe de fraterno poder classificar 

Mas disposta a andar por caminhos 

Disposta a aceitar

Estaria?

Seus olhos são um convite

Moldados bem-feitos ao meu gostar

Tentação eterna

Necessário recuar

É a provação divina

Como um inferno particular 

Atiça 

Mas pecado maior ainda parece ser

Não olhar

Seus olhos são como espelhos 

Da minha própria existência 

Agoniada e perturbada

Na intenção de ser serena

Conflito estúpido 

Entre o cérebro e a carne

Como se pudesse provar…

Mas que mal faria provar

Quando não importa o que se sabe?

Ora a ânsia, ora o desprezo

Ora a vontade, ora o bloqueio

Ora a recusa, ora o desejo 

Seus olhos são como espelhos

Frágeis e sensíveis como o vidro

Afiados e alheios aos seus efeitos

Seus olhos são como espelhos

Espelho, espelho meu 

Só que nunca fui eu 
Carolina Alves

Abandono

Sob o olhar despedaçado da vã expectativa Cuidadosamente mantida e construída 

Cautelosamente vigiada

Porém impossível de ser protegida

Destroçada por um sopro 

E mesmo assim, diversas vezes reerguida

Até se dar conta dessa sensação que angustia

Existia um limite, 

Ou tudo valia?
Sob o olhar abandonado

De quem há muito espera 

Implorando de forma contida

Que a chegada não fosse modesta 

De que adianta, perdida

A esperança desta
Criadora e criatura 

Sob o manto da tristeza

Quem via, sabia ou ouvia 

Coisa qualquer que pudesse ser feita 

Mas esse poder exclusivamente cabia 

A mãos que recusava o dono

E ali está aquela visão sofrível  

Sob os braços do abandono 

Carolina Alves